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Apreciando a Vida

13/02/2014

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Por Rodrigo Mammana

 

Certas vezes me pergunto como vim parar aqui.

Ao fazer um retrospecto de minha vida, não consigo encontrar o momento, o divisor de águas que despertou meu interesse em começar a prestar atenção no alimento que consumo ( seja ele líquido ou sólido).

Vivi a infância e adolescência em uma época que não se ouvia falar muito em alimentação saudável, ecologia, riscos do consumo de substâncias nocivas. As únicas opções de lanches e almoço na minha escola, um colégio frequentado pela elite paulistana, eram sanduiches feitos na chapa com hamburgueres industrializados, bacon, queijo amarelo de péssima qualidade, sempre acompanhados de uma fanta ou coca cola. Nunca  ouvi qualquer comentário de algum pai ou reclamações sobre a qualidade da comida. A comida boa da época eram frituras e mais frituras, tudo à milanesa, batatas fritas, etc. Algo grelhado com apenas um pouco de azeite acompanhado de legmes salteados seria visto como algo sem sabor, “ sem graça”. Quem não se lembra das viagens de avião com um sujeito ao seu lado fumando e jogando as cinzas naquele cinzeirinho do braço do assento. Se você fizesse alguma careta ou abanasse com a mão sinalizando o incômodo quem ficava “ bravo” era o fumante! “Onde já se viu relamar de meu cigarro, que frescura!” . Pois bem, vivendo minha adolescência nos anos 80, a unica maneira de ter desenvolvido algum interesse por produções gastronômicas mais sofisticadas seria se tivesse recebido algum estímulo ou orientação sobre isso, porém minha família nunca teve muita inclinação para essa área. Meu pai fez com que em mim se despertasse a paixão pela leitura ( quase não tenho lembranças dele sem um livro na mão), a apreciar o jazz clássico, o cinema. Para a gastronomia e enofilia tive que fazer por conta própria.

Uma vez assisti uma entrevista  com o grande trompetista Wynton Marsallis onde ele dizia que “ a coisa boa não vem até você, é você quem tem que ir a ela”. Eu notei isso há bastante tempo, e por isso tentei regrar minha vida buscando alta qualidade em todas áreas. Ao alugar um filme procurava em meu guia os considerados “5 estrelas”. Em minha cabeça só faria sentido assistir os “ 4 estrelas “ quando já tivesse visto os de 5. Com essa ideia aparentemente limitada , acabei conhecendo os grandes clássicos do cinema, obras primas que em princípio não entendemos mas com o tempo vão te cativando até você claramente perceber quando uma obra é de qualidade inferior. O mesmo raciocínio pode ser aplicado nas mais diversas áreas, e depois de um certo tempo estudando o assunto você já se sente capaz de fazer a própria avaliação e não se guiar mais pelas tais “ estrelas”. Você começa a perceber que concorda mais com as opiniões de determinado crítico e menos com as de outro. Começa a descobrir que existem inúmeras pessoas com conhecimento limitado e se fazem passar por “ experts” através de postura arrogante e intimidadora. Como dizia Thomas Fuller, “ não é a barba que faz o filósofo”.

Uma noção que tive na adolescência foi que a potencialização do prazer era a única coisa que realmente importava. O raciocínio era simples: Se eu, por ignorar o que é uma produção gastronômica de alta qualidade tenho um prazer imenso em comer um Big Mac, provavelmente o prazer que tenho em devorá-lo é similar ao prazer que um conhecedor com paladar refinado só consegue com produções caras, raras e sofisticadas. A conclusão disso é que a ignorância é uma benção, pois pode me proporcionar um alto grau de satisfação com algo facilmente “ alcançável”. Isso pode ser usado com qualquer assunto: o prazer em assistir uma telenovela, de ouvir uma música de bailes funk, de fazer churrasco de espetinhos enquanto se bebe uma cerveja insípida. Estas pessoas estão se deliciando com tudo isso, portanto conhecer Mozart, um bife de chorizo ou uma cerveja belga trapista se torna algo totalmente inútil. Basta que a pessoa nunca conheça para que sua felicidade seja plena sem precisar de muito dinheiro nem tempo de estudo. Apesar dessa lógica ter lá seus adeptos, hoje em dia penso um pouco diferente. Lembro-me de uma passagem na obra “ O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, onde ele dizia que o homem não foi feito para nadar. Seu corpo foi desenvolvido para vivier em terra, tanto que nosso instinto é de ficar longe de grandes volumes de água. Entretanto o homem pode aprender a nadar, e quando isso ocorre ele continua querendo nadar cada vez mais, até se sentir plenamente seguro e um dia talvez acabar morrendo afogado. No livro citava-se esse exemplo como analogia ao pensamento: dizia que não somos feitos para pensar, mas quando somos “ fisgados” pelo interesse em fazê-lo começamos uma jornada que não tem mais retorno, e que inclusive pode nos levar ao fim. Confesso que me sinto um pouco dessa maneira , pois ao começar minha jornada na gastronomia e nos vinhos, acabei seduzido por esse mundo de tal maneira que tenho plena consciência que não adianta mais nadar contra a correnteza, pois isso faz parte de mim e de certa forma chega a definir em parte o ser humano que me tornei.

Quando iniciei meus estudos sobre vinhos não tinha a mínima noção da imensidão e abrangência do tema. Imaginava que conheceria os estilos de vinho, algumas regiões e saberia escolher o produto adequado para cada ocasião. Logo no início fui percebendo que o líquido que está em seu copo é apenas uma parte ínfima de tudo aquilo que  representa. Junto com ele vem uma história com mais de 8 mil anos. Para conhecer realmente aquele vinho que está bebendo, você deve conhecer a geografia da região que foi produzido, os costumes do povo que a habitam , o motivo da escolha da variedade de uva e técnicas de vinificação. Depois disso você observa mais atentamente o que as pessoas que lá vivem costumam comer, quais são seus pratos típicos e qual o motivo de ao longo de muito tempo eles terem adquirido a predileção por um estilo específico de vinho e uma culinária regional também específica. Será por acaso que o Cassoulet de Tolouse harmoniza tão bem com vinhos da mesma região ou próximos, tal como um Fitou ? A partir do momento que você entende essa abrangência maior, começa a se interessar por tudo que está em torno do vinho.

Para se adquirir um bom conhecimento sobre vinhos é indispensável que se tenha também profundos conhecimentos de geografia, história, agricultura, etc. Mas não pára por aí. Quando você já está imerso nesse mundo, começa a perceber que as pessoas que possuem o mesmo interesse também são muito interessantes. A quantidade de pessoas extremamente cultas que conheci durante minha jornada foi enorme, pessoas que não falam apenas sobre vinho. São pessoas viajadas, apreciadoras das artes, nos levando frequentemente a diálogos saudáveis e inspiradores, sempre nos trazendo a sensação de termos saído daquele encontro maiores do que quando entramos. Normalmente são pessoas despretensiosas e com um perifl completamente oposto à imagem de arrogância que muitos possuem dos enófilos. O vinho nos estimula a viajar para regiões que nunca antes pensaríamos em ir , e quando conhecemos cada uma delas acabamos tendo contato direto com seu povo, o agricultor humilde no interior da Borgonha, um proprietário de um pequeno restaurante na Sicília e mais centenas de exemplos. Esses produtores de vinhos tem um enorme prazer em receber quem entende sua arte, fazem questão de partilhar sem nunca serem sovinas.

Aliás essa é outra característica que observo frequentemente no vinho: as pessoas não hesitam em partilhar um vinho especial que possuem, demonstrando claramente que é um prazer sincero poder dividir a experiência com outros que compatilham a mesma paixão. Não estou falando de pessoas ricas que não faz diferença o preço, e sim pessoas que tem um carinho especial por determinada garrafa, acaba contando a história do momento em que a adquiriu e depois abre o vinho com grande prazer. Foram inúmera situações dessas , e tenho certeza que ainda haverá incontáveis momentos como esse ainda esão por vir.       

Apesar de citar diversos motivos que me incentivaram a continuar a estudar cada vez mais a fundo a área dos vinhos, existe um em especial que considero o mais importante de todos: A capacidade que ele tem de reunir pessoas queridas e proporcionar momentos inesquecíveis. É atávica a reuião em torno do fogo onde sem pressa alguma podemos interagir, relaxar, conversar e sentir o pulsar da vida em sua forma mais pura. Um simples risoto que preparo em casa para minha esposa e filhos  ( pequenos) ao redor da mesa e uma garrafa de vinho aberta transforma o momento em algo especial . Ao escrever essas palavras posso sentir o ambiente como se realmente estivesse lá, sendo apenas paz e felicidade que me vem à memória. Posso me transportar então para a noite de ano novo quando preparei a ceia, cuidei para que os vinhos estivessem nas temperaturas perfeitas e passei deliciosos momentos com os amigos.

Talvez meu sangue siciliano fale muito alto, porém meu ideal de felicidade está na reunião da família ou amigos queridos em torno da boa mesa, partilhando o que nos traz conforto e prazer: momentos que vamos colecionando e gravando em nossa biblioteca interna de memórias que carregaremos por toda a vida. Mesmo quando eu não fizer mais parte desse mundo, tenho certeza que as sementes que plantei serão levadas adiante, e que as pessoas que conviveram comigo saberão o valor que sempre dei a esses simples momentos.      

Será que todo esse prazer e sentimento de emoção que acabo de descrever seria possível se eu não tivesse iniciado minha viagem pelo conhecimento? Se eu possuísse aquele prazer ignorante mencionado, com um Big Mac , coca-cola e a  TV ligada na novela, sentiria a mesma intensidade de prazer? Acredito que não. Para que o prazer seja realmente sublime é necessária a contemplação. Para realmente contemplar precisamos de muito esforço para adquirir conhecimento suficiente e finalmente compreender o que é belo.  A beleza está a nossa volta sob todas as formas, mas saber reconhecê-la e apreciá-la é tarefa para poucos.  

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6 Comentários
  1. Ricardo Vasconcellos Sobral permalink

    Caro Rodrigo ,
    Fui adolescente uma década antes de vc …. kkkk , mas é bom saber que existem pessoas que pensam , sentem e vivem com nós (se bem que acho que cada vez mais somos a minoria , da minoria , mas não importa !!) , a verdade é que seu texto está delicioso , me fez viajar , mesmo estando no escritório .
    Parabéns e abs !
    Ricardo V. Sobral

    • Prezado Ricardo

      Fico feliz que tenha gostado, tenho certeza de que apesar de certamente sermos minoria muitas pessoas se identificarão com o texto. Obrigado pelas palavras.

      Um abraço

      Rodrigo

  2. Davide Botton permalink

    Caro Rodrigo,
    Grande texto, honra de repartir ideias, vinho e mesa.
    Um abraco amigo

    • Grande amigo Davide, a honra é minha e certamente compartilharemos muitos momentos juntos ainda.
      Fraterno abraço,
      Rodrigo

  3. Daniela Mammana permalink

    É um grande privilegio partilhar destes momentos, certamente são as verdadeiras joias que carregamos ao longo de nossas vidas.
    carinhosamente

  4. Obrigado Dani, você consegue tornar tudo isso ainda mais mágico!

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